“Mãe, você não conhece a minha alma. Eu também não, mas eu a sinto. E, mãe, eu sinto tanto. Sabe as vezes que me viu com os olhos cheios de lágrimas, no entardecer de um dia qualquer? Era porque, mais uma vez dentre tantas, minha alma estava se contorcendo. E eu senti. Sinto. Mãe, eu sou grande. Aqui dentro, dentro deste corpo que é de geração sua, eu sou enorme. Inchada, inflada, transbordante. Eu não caibo em mim, mãe. E a senhora, como qualquer outro ser, não sabia disso. Ninguém sabe, nem imagina. Porque eu me escondo, me aperto em mim, me sufoco. Prefiro manter-me aqui, para quando for de verdadeira necessidade, abrir as asas.
Mãe, eu tenho um amor. Só um. E, mãe, eu sou feita dele. O modo como eu rio de quando a senhora e meu pai discutem por besteira, o modo de como digo idiotices para fazer vocês dois rirem de mim, o modo de como sei guardar segredos e muitas vezes esquecê-los, o modo como grito gol quando nosso time o faz, o modo como pisco os olhos para não soltar palavras através deles, o modo como respiro firme e confiantemente ao receber uma crítica… É tudo proveniente do amor, mãe. Do meu amor. Eu o sinto e sou dele. Do amor.
E o moço dono e criador dele, mãe, é o único que sabe cuidar de mim, depois da senhora. É o único que teria paciência de me colocar no colo e beijar a minha testa até minha dor de cabeça passar, como a senhora faz. É o único que sentaria e conversaria horas sobre nada, comigo, como a senhora faz. É o único que tem o poder, assim como a senhora, de me fazer feliz. Explicativamente, o seu poder é utilizado, muitas vezes, para me deixar. Me deixar fazer algo, ir à algum lugar, ser algo. O poder do meu moço, mãe, é sempre o de ficar. De ficar ao meu lado numa tarde de terça, numa madrugada de domingo ou numa manhã inteira de sexta. Ficar e me fazer sorrir como não sorrio quando estou perto dos meus melhores amigos, mãe.
A senhora entende? Eu tenho quinze anos e nunca encontrei ninguém, além da senhora, que me fizesse pensar “Por essa pessoa eu iria até o final do mundo”. E eu penso isso por ele, mãe. A senhora entende como eu o amo? A senhora pode sentir meu amor reprimido nas minhas lágrimas, que tantas vezes, foram derramadas em seu colo, sem ao menos a senhora saber o motivo? A senhora pode pensar, por um segundo, que o que eu sinto é o mesmo que sentia sua alma quando conheceu o meu pai?
E, mãe, eu quero me casar. A senhora sabe que eu não sei nada. Não sei como se prepara um almoço, não sei acender esqueiro, não sei resolver contas difíceis de algebra, não sei calar-me em frente à uma injustiça, não sei sorrir para gente puramente falsa, não sei andar de ônibus pela cidade, não sei lavar meus tênis, não sei cuidar de mim, e não sei, nem ao menos, que profissão seguir. Mas, sei que vou casá-lo comigo, mãe.
Imagino que seus inúmeros anos de vida estão rindo escandalosamente ou estão muito preocupados de tudo que lhe disse agora. Por achar estúpido ou verdadeiro. Eu não sei. Mas mãe, acredita em mim. Só preciso que acredite, e que me observe, aos próximos dias, meses, anos. Que esteja do meu lado, olhando os meus movimentos. Entendendo o porque de eu ter me guardado, o porque de eu ser calada e cansativa. Esteja comigo, mãe. Verás a grandeza que eu sou, que eu tenho. E goste do moço que sua filha ama. Goste dele, mãe. Por favor. Além de toda a minha coragem para enfrentar o mundo pelo meu amor, o que preciso é do seu sim. E da sua confiança integral.
Eu vou crescer e lhe mostrar.
Me desculpa. Por… tudo. Me desculpa.
Eu te amo. Eu te amo, mãe. Eu te amo.
“Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor? Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.